As Salinas
artigo de opinião de Miguel Félix Paulo*
Ainda D. Afonso Henriques não havia sido reconhecido Rei pelo Papa Alexandre III, a 23 de Maio de 1179, e já se falava das Salinas de Rio Maior.
Foi em 1177 que Pêro D’Aragão e sua mulher Sancha Soares, venderam aos Templários “a quinta parte que tinham do poço e Salinas de Rio Maior, cujo poço partia pelo Este com Albergaria do Rei; pelo Oeste com D. Pardo e com a Ordem do Hospital; pelo Norte com Marinhas da mesma Ordem; e pelo Sul com Marinhas do dito D. Pardo”. Assim diz Pinho Leal, citando o escrito comprovativo dessa venda. Este documento, que é o mais antigo que se conhece referente a Rio Maior encontra-se arquivado na Torre do Tombo em Lisboa.” – in Wikipédia.
E, como se pode ver, falou-se porque se fez um negócio de compra e venda e houve que fazer o relato para a História, uma espécie de Registo.
Tiveram a evolução dos tempos, subsistindo, ora com mais dificuldades, ora com menos, resistiram a intempéries, à devassa industrial como vizinha, sofreram ampliações e melhoramentos, sendo que grosso modo e nos tempos mais recentes foram construídos os tanques de concentração no nível superior, tiveram uma intervenção maior de requalificação em 1996, obras de reposição de parte do talude que sustenta a estrada municipal, que derrocou, um recente parque de estacionamento e a última construção de um novo armazém polivalente.
Enalteço o esforço de um Plano de Pormenor de execução recente, também.
São as Salinas de Rio Maior, onde há “Sal sem Mar”, numa apresentação de alguns segundos daquela que entrou para a lista das 49 Aldeias pré-finalistas das 7 Maravilhas de Portugal – Aldeias, inseridas na categoria de Aldeias em Áreas Protegidas.
E agora, é suposto votarmos todos e mais alguns que conseguirmos mobilizar para que tenha boa classificação, e quem sabe, ganhe. Todos os domingos, durante 7 semanas, a RTP vai transmitir uma Gala dedicada a cada uma das 7 categorias. A primeira Gala teve lugar a 9 de Julho e o processo culmina a 3 de Setembro, em plena Feira Nacional da Cebola, com o anúncio dos vencedores por cada categoria.
O maior proveito que toda esta operação nos poderá trazer é, sem dúvida, a divulgação deste Património único e visitável que temos. E é também aqui que podem começar os problemas. Não é que não tenhamos já alguns, mas podem vir outros mais chatos.
Nas Salinas de Rio Maior, um dia típico de pressão de visitas pode ser: 1 restaurante cheio de clientes e o respectivo parque de estacionamento cheio de automóveis; casas de banho exteriores com fila e muito poucas condições de utilização e higiene; 3 autocarros a deambular por ali e parando onde os motoristas melhor podem para incomodar menos; 1 posto de turismo fechado; automóveis, bicicletas, trotinetes e peões num salve-se quem puder por entre as lojinhas de madeira; Salineiros de rodo na mão dentro dos talhos; o dumper carregando o sal e em manobras; pessoas em fila indiana pelos carreiros fora entre os talhos; um pau de gelado que lá escapou da mão de um miúdo ou de um graúdo; pessoas ávidas de saber mais da história daquele espaço; e pessoas que fervem de raiva ao verem aquela desordem e risco para a preservação das salinas, com alguma má informação à mistura…
Agora vamos imaginar que fruto da divulgação e onda turística que o País atravessa, este cenário se multiplica por 2 ou 3, para começar:
CAOS: substantivo masculino para confusão, desordem, perturbação. É o que me ocorre. Acrescido pela má imagem que daqui será transportada e por aqueles que farão desta visita a única, e enquanto a má memória durar não voltarão, nem recomendarão a ninguém que passem por cá. E o Turismo de hoje vive muito da recomendação que cada um faz ao seu núcleo de relações próximo e dos comentários vivenciais que coloca, por exemplo, na internet.
O assunto das Salinas não é fácil de abordar e mete Salineiros e empresas, Comerciantes, Cooperativa e Associações, CCDR, Parque Natural, Câmara Municipal e Junta de Freguesia, Região de Turismo, Opinião Pública… Pessoas. E até no campo dos animais é preciso regular o seu trânsito e permanência nas Salinas, é muito complicado, de facto.
Mas nos tempos de hoje, em que o País acordou para o Turismo doméstico e externo, com a compreensão de todos para uma mudança necessária, sob pena de se perder uma oportunidade (e já se perderam algumas), com um Plano de Pormenor aprovado, e a notoriedade e divulgação que programas como este das «7 Maravilhas de Portugal – Aldeias» dão, não se exige uma dinâmica maior e mais eficaz?
É quase como o Cadastro Nacional: nunca ninguém o começou porque era difícil e demorava tempo! E os anos passaram-se, na mesma.
Alguém tem de ter a paciência de dar o mote e iniciar o trabalho, executando um Plano que tem de ser debatido por todos, ter o contributo de todos e ser integrado para bem do Património. Não só para que traga visitantes, mas para que seja um sucesso e âncora de muitas outras coisas complementares. A Serra, os outros Monumentos e Pontos de Interesse que temos, as Festas Populares, as Feiras, outros Eventos, o Turismo Rural, os Restaurantes, as Associações, e o mais que possa surgir a “reboque” de âncoras como esta.
É comum e popular montarem-se “pacotes de experiências e vivências” onde o Turista “vive” um conjunto de actividades integradas num dia, em dois ou três. Mas, para isso, tem de haver Plano e estrutura pelo que uma divulgação precipitada pode ser contraproducente. E não me passa pela cabeça pararmos de divulgar as Salinas, nem é isso que se defende aqui.
Gostava é que se pensasse já na forma de receber os visitantes, e nós Riomaiorenses, e se pudesse divulgar também tudo o resto que falta. E falta muito.
Notas:
- Artigo publicado na edição nº 1501 de 14/7/2017 do jornal Região de Rio Maior.
- Texto escrito em desconformidade com o Acordo Ortográfico.