Jesuíno Bom, de «O Tempo e os Homens» e dos bicos de escamisar.
Quando da recente Feira de S. Martinho, em Arrouquelas (concelho de Rio Maior), num dos expositores fomos dar com Jesuíno Bom – António Rogério Jesuíno Bom –, colaborador do jornal Região de Rio Maior há muitos anos, que embora esporádico os leitores se lembrarão de ler na coluna «O Tempo e os Homens», escrevendo quase sempre a enraizar o hoje no ontem, nunca perdendo de vista a cultura popular que enforma e informa a maneira de ser e pensar do povo, antes ajudando a preservá-la de modo que se possam retirar dela lições para a vida.
Jesuíno Bom, 74 anos, é um homem bem humorado. Estivemos à conversa.
REGIÃO de Rio Maior ( REGIÃO ) Ó Sr. Jesuíno o que é que fazia antes de estar reformado?
Jesuíno Bom ( JB ) – Era torneiro mecânico. Fui torneiro mecânico durante 42 anos. E antes de ser torneiro mecânico fui serrador de madeiras durante 3 anos. Antes de ser serrador fui agricultor. E antes de ser agricultor ainda fui estudante para engenheiro mas interrompi os estudo à 4ª classe…
(Gargalhadas, é claro).
REGIÃO – E nas horas vagas vai escrevendo…
JB – É para colaborar com o jornal… Durante o dia ando na agricultura e à noite entretenho-me…
REGIÃO – A entreter-se também vai fazendo estas coisas para escamisar…
JB – Quando os rapazes começavam a namoriscar as raparigas que andavam a trabalhar no campo, preparavam um bico de escamisar para lhes oferecer; quanto mais embelezado fosse, melhor era, mais valor tinha. Então eles, depois de almoçarem, à hora do descanso, cada um com o seu canivete iam fazendo os bicos de escamisar e depois davam-nos a elas e recebiam qualquer coisa em troca.
REGIÃO – Estes bicos servem para descascar a maçaroca…
JB – Eram para descamisar a maçaroca. Estes fi-los respondendo a um desafio que a Salpiquete* me colocou. Fez-se uma reunião para tratar (da recriação do ciclo cultural) do milho, toda a gente fazia os bicos mas quando se chegou à própria da hora só havia 7 ou 8 bicos feitos. Mas eu tinha 60. A Dra. Judite estava preocupada, porque esperava-se uma série de visitantes e a ideia era oferecer um bico a cada pessoa que viesse de fora. Disse-lhe que deixasse estar que eu resolvia o problema; cheguei a deitar-me às 3 da madrugada, a fazer bicos de escamisar… ainda fiz 130 ou 140 e tal. E depois, olhe, fiz este mostruário que trouxe aqui à Feira de S. Martinho.
REGIÃO – São para vender?
JB – Não! São relíquias… É património da “casa”. É tudo madeira de urze, muito rija, que é para o bico não ficar escavacado.
REGIÃO – Utiliza apenas o canivete?
JB – Nalguns casos também uso uma serrinha e depois aperfeiçoo com o canivete. O dos losangos foi o que me deu mais trabalho, por causa do veio da madeira; tive que adaptar um canivete de lâmina fina.
Texto e fotos: C. M.