Os 10 anos de carreira do Palhatiko

O Palhatiko, palhaço criado por Luís Sequeira, já tem uma carreira com 10 anos, período ao longo do qual se tornou conhecido na região e um pouco por todo o país. As crianças adoram-no. Já ganhou prémios e é mesmo uma referência para palhaços mais jovens. Na verdade Luís Sequeira ganhou com ele o respeito e a consideração de outros artistas da mesma área e não só, que se juntam a si em Rio Maior, no sábado, 30 de Agosto, para festejarem o 10.º aniversário do Palhatiko com o espectáculo Cabaré 1 «Café Cão Circo», no Cinema Casimiros, onde está instalada a sede da «Quem não tem cão…» Oficina de Artistas, Associação Cultural. Começa às 5 da tarde.

L uís Sequeira costuma dizer que quando veste a pele do palhaço entra num mundo completamente à parte. Foi um pouco desse mundo – que insuflou na sua criação, o Palhatiko –, ou seja de si, e do espectáculo do próximo sábado que me falou nesta entrevista.

Região de Rio Maior (REGIÃO) – Luís Sequeira, 10 anos de carreira é obra!

Luís Sequeira (LS) – É… É uma obra grande!

Região – A sua base é Rio Maior, uma pequena cidade de província, que não basta para assegurar a sua arte como modo de vida exclusivo… Tem que exercê-la pelo menos na região mas bem sei que trabalha em todo o país.

LS – Trabalho realmente em todo o país. Mas felizmente as pessoas, aqui dão valor à arte do palhaço e eu trabalho muito na cidade de Rio Maior e seus arredores, na verdade em todo o concelho. É claro que o meu mercado extramuros é maior e por conseguinte muito mais forte.

Região – Já se dedica apenas à arte do Palhatiko ou ainda não é oportuno dar esse passo?

LS – Ainda não estou a trabalhar só como palhaço… Tenho um filho, sou seu pai e mãe pelo que tenho que me preocupar com alguma segurança financeira, razão pela qual tenho um emprego durante toda a semana. Felizmente tenho tido muito trabalho como Palhatiko, tenho estado a crescer mais, este ano tem sido maravilhoso. Sozinho, eu conseguia viver só do palhaço mas prefiro ter a tal segurança do emprego certo. Quando o meu filho for mais crescido, aí talvez arrisque mais e faça apenas o palhaço.

Região – Qual foi o dia mais negro para o Palhatiko?

LS – O Palhatiko não teve até agora um dia que se possa dizer “negro”. Há dias que não estamos com “aquela” disposição que nos permite extrair o máximo daquilo que temos que fazer, porque todos nós somos humanos e um palhaço é uma pessoa como qualquer outra. Já tive alturas em que a situação que estava a viver não era a melhor e no entanto tinha que ir animar uma festa, um evento qualquer e o meu desempenho acabava por se tornar um escape para mim. Eu costumo dizer que quando visto a pele do palhaço entro num mundo completamente à parte.

Região – Consegue abstrair-se dos seus problemas?

LS – Completamente! É como se pusesse uma máscara e fosse tele-transportado para outra dimensão qualquer. Afinal de contas as pessoas contratam-me para animar aquela festa, aquele evento; é essa a minha função. Independentemente do estado de espírito com que esteja naquela altura, eu tenho que conseguir ter a capacidade de virar a página e naquelas duas, três ou quatro horas que ali estou, eu sei que não me vou lembrar dos problemas e que vou conseguir divertir as pessoas.

Região – Agora fale-me do melhor momento do Palhatiko…

LS – Um grande momento para o Palhatiko aconteceu em 2008, ano em que foi considerado um dos melhores palhaços de Portugal. Mas um dos momentos mais deliciosos da minha carreira deu-se agora em 2014, quando estive em Évora a participar na Semana dos Palhaços – felizmente já sou um artista convidado desses eventos. Nessa altura esteve cá um palhaço americano que já pertenceu ao Cirque du Soleil e ao Slava Show, que são aquele tipo de circos para onde um artista sonha ir, tal como um jogador de futebol sonha ir para o Real Madrid, por exemplo. Esse palhaço fez críticas muito agradáveis ao meu espectáculo. Apresentei o meu espectáculo duas vezes e ainda fiz mais umas galas; ele assistiu e fez uma crítica muito boa, que para mim foi um ponto altíssimo da minha carreira, porque ter uma pessoa daquele gabarito a gabar o meu espectáculo – e ele é super sincero, porque se não tivesse gostado nem sequer teria vindo falar comigo –, é extraordinário!

Região – O Luís encara a possibilidade de vir a actuar no estrangeiro?

LS – Encaro. Aliás eu tenho um plano na minha cabeça… tenho sonhos… Toda a gente tem sonhos e um dos meus sonhos é percorrer, pelo menos numa primeira fase, a Europa, se bem que já tenha convites para ir à Argentina, até porque vou trazer um palhaço argentino à festa dos meus 10 anos de carreira. Eu costumo dizer que nós, os palhaços, somos uma família e então todos nos conhecemos uns aos outros, independentemente dos países. Mas a primeira fase do meu sonho é percorrer a Europa e apresentar espectáculos nas comunidades portuguesas, para começar, e depois alargar o leque. Ir por minha iniciativa e dar espectáculos; porque eu também faço espectáculos de rua.

Região – O que é que preparou para o 1.º Cabaré «Café Cão Circo», espectáculo comemorativo do 10.º aniversário da sua carreira como Palhatiko?

LS – Vamos ter um espectáculo muito variado. Os palhaços não são todos iguais. Cada palhaço é um palhaço. Recorri aos amigos e fiz uma selecção de palhaços um bocadinho diferentes uns dos outros. Achei que fazia todo o sentido comemorar os 10 anos da minha carreira aqui em Rio Maior, porque as pessoas de Rio Maior merecem o meu respeito. As crianças principalmente, porque eu já tenho um mini clube de fãs que me seguem para todo o lado…

É muito engraçado. Às vezes nem consigo ir para o jardim brincar com o meu filho, porque passado um bocado é só crianças à minha volta, “Olha o Palhatiko!” e festejam o encontro de forma esfuziante. E o meu filho: “Ó pai, eu hoje gostava de brincar só um bocadinho contigo…”

Também me pareceu que fazia todo o sentido fazer um espectáculo diferente; porque não um cabaré? Penso que nunca foi feito nenhum em Rio Maior. Mas como ao tentar-se abrir algumas portas elas não se abriram, estavam assim um bocadinho perras, decidi fazer tudo sozinho. Como tenho muitos amigos e a família dos palhaços é mesmo uma família e quando é preciso nós estamos lá, todos os artistas que vêm cá, vêm pela amizade, não vêm receber dinheiro, nada. Aliás, vamos cobrar 1 euro à entrada, porque não quero ficar a sentir-me mal por eles terem que gastar dinheiro a deslocarem-se até cá e eu nem sequer lhes dar uma ajuda para o regresso.

Enfim, como também há a tomada de posse dos novos corpos dirigentes da «Quem não tem cão…» – Oficina de Artistas, juntam-se os dois acontecimentos.

Região – Qual é a sua relação com a Associação Cultural «Quem não tem cão…»?

LS – Faço parte da Associação. Já era presidente da assembleia geral nos corpos sociais anteriores, integrei a lista eleita que vai agora tomar posse e continuo como presidente da assembleia geral.

Região – «Quem não tem cão…» é mesmo uma oficina de artistas, que não tem só a ver com teatro, abrange outras áreas da expressão artística…

LS – Fui convidado pelo Dr. Rui Germano, que era o presidente da Associação, a entrar para a «Quem não tem cão…». Foi na base de uma troca de experiências, numa troca de serviços: eu precisava de um sítio para ensaiar e eles precisavam de alguém para animar quando, por vezes, tinham peças em cena, ou alguma recepção, ou mesmo para representar como chegou a acontecer; e então ficou assente que me cediam o espaço para ensaiar e eu, em troca, quando era necessário ia com eles e actuava com eles

Região – Voltemos ao espectáculo deste sábado, 30 de Agosto, com início às 17h00, comemorativo do 10.º aniversário da sua carreira como Palhatiko, no Cinema Casimiros, que é onde a «Quem não tem cão…» tem a sua sede. Suba um pouco o pano e revele aos leitores o que vai acontecer…

LS – Está bem mas deixe-me começar por agradecer aos artistas que vêm cá e enaltecê-los. Vamos ter um artista que é muito pequenino e que vai actuar pela primeira vez; é um menino, meu fã desde os dois anos de idade, quando comecei a fazer espectáculos nos aniversários da irmã. Aquela família é fantástica e aparece sempre nos meus espectáculos públicos na região. Aquelas duas crianças já viram mais de 50 espectáculos meus! Agora o Dinis Salema vai fazer uma espécie de número musical comigo, porque ele toca acordeão; quando o convidei ele ficou super entusiasmado. Depois vamos ter a boneca Joaninha, que foi minha colega no Chapitô quando lá estive a obter formação; mantivemos sempre contacto e trabalhamos juntos muitas vezes. Quem também participa é o Pitu, que é um palhaço de Évora. A propósito deixe-me dizer que todos os palhaços que vêm ao 1.º Cabaré «Café Cão Circo» são artistas com quem eu já partilhei o palco.

Do Bombarral vem a palhaça Maria Colibri. Vem o Juanillo, da Argentina e o Espaguete, que é o Joel Oliveira, um doutor palhaço, brasileiro, da Operação Nariz Vermelho, mas que participa neste espectáculo a título pessoal; é um dos vários amigos que tenho na Operação Nariz Vermelho assim como nas outras duas associações similares, uma no Norte que é a dos Palhaços d’Opital e a outra, a dos Remédios do Riso, palhaços que usam um nariz verde e actuam mais no Alentejo e no Algarve.

Também cá estarão o Didi e a Sissi, da Ericeira, com os quais também já partilhei o palco e que recentemente estiveram na televisão, no Desafio Total; é um jovem casal cinco estrelas que está a apostar tudo na arte circense e, imaginem, têm-me como referência! – o que é engraçado.

O único que não é palhaço e vem participar na festa dos 10 anos de carreira do Palhatiko é o Paulo Word Dog, que tem um espectáculo seu, de rua, no âmbito das artes circenses, que é fabuloso. A especialidade do Paulo é o Diablo.

O «Café Cão Circo» vai durar aproximadamente uma hora e meia. A tomada de posse dos novos corpos sociais da «Quem não tem cão…», não fazendo propriamente parte do espectáculo, não deixará de ser tema nessa tarde. Até me consta que é capaz de estar reservada alguma surpresa… Mas o Palhatiko não que me contou nada!

Contou-me foi outra coisa: que no domingo de manhã, dia 31, por volta das 10h00 vale a pena as crianças e os papás aparecerem no Jardim Municipal 25 de Abril!

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